27/04/04

"... e Poetas?"


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Daí o leve sobressalto que senti quando numa coluna recente de Sarsfield Cabral encontro uma descrição bastante correcta dos portugueses como indivíduos displicentes, irresponsáveis, diletantes, sem sentido prático. E a fechar este impiedoso retrato, Sarsfield Cabral escrevia: "... e poetas". Eu percebo o que ele quer dizer: utiliza a palavra na sua acepção mais pejorativa, aquela que nos leva a dizer de uma personalidade desligada da realidade: "És um poeta!" Mas será que avalia o que este uso laxista de uma palavra tem como consequências na concepção de conjunto da formação cultural? Como é que vamos defender a leitura de Sá de Miranda ou Camilo Pessanha, Cesário Verde ou Fernando Pessoa, Jorge de Sena ou Herberto Helder, se falamos dos poetas neste tom altivo e sobranceiro? Como é que vamos lutar pela inclusão do ensino da literatura na aprendizagem do português quando falamos assim da poesia?

A poesia é para muitos - mas não certamente para Sarsfield Cabral - uma espécie de edulcorante da realidade: polvilha o mundo de bons sentimentos. Nesse aspecto, é a própria poesia que tem mais veementemente denunciado a poesia. No final do século XIX (recorde-se Rimbaud), ou ao longo do século XX, a poesia autêntica lutou contra a sua versão abonecada e cicatrizante. A verdadeira poesia não é a que elimina a dor, mas a que lhe dá sentido. Lutar contra a dor sem sentido é o seu combate essencial. A verdadeira poesia é a que senta a beleza nos seus joelhos e lhe torce o pescoço - e com isso inventa uma outra beleza. A verdadeira poesia é a que procura uma outra lógica para destruir os limites da lógica tradicional - não é a que pretende escapar-se a qualquer lógica. A verdadeira poesia é aquela que descobre que o sonho é uma forma de pensamento - e não uma fuga ao rigor do pensar.

É verdade que existem diversas posições nestas matérias. Há aquela que considera que a ciência é a forma mais alta do conhecimento - ou, no pólo oposto, a que pensa que a poesia é o conhecimento mais elevado e denso. Mas há também a versão pluralista e tolerante: trata-se de formas de conhecimento que coexistem, se prolongam e corrigem mutuamente. A razão é plural. E nós atravessamos em alta velocidade essa pluralidade de razões. »


EDUARDO PRADO COELHO, 27 de Abril de 2004, in Público

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