15/01/04

OSSUÁRIO EM CHAMAS

(Aos desesperados)

1

Concebam o meu precário equilíbrio sobre o fio duma navalha psíquica
sofrendo o aparafusamento de uma certa verdade na carne.

Contemplem o sustentáculo do meu espírito
esta mão trémula terminando o braço inseguro da vida.

Numa objectiva suspensão mas bizarra inverificabilidade
ponto intocável e incongruente que nem o dedo obsessivamente inquiridor do meu pensamento roça
movo-me ainda
mas a sucessão dos gestos surge falsa.

Fundei-me sobre bases que se negam como tais
que se impõem como desmonoramentos :
- sou a palpável ruína de algo que nunca foi.

Atingi obrigatoriamente o menor nível possível de vitalidade em mim
a estiagem do fluxo sensível
o zero absoluto do ser para neste entorpecimento não me assistir pensando
vivo numa vacação indeterminada do Eu.

Acedo pela brecha lúcida do terror
ao lúrido pélago a que devo constantemente arrancar-me
sob pena de tornar-me inacessível a mim mesmo.

As desinências ofegantes do meu organismo pensante
conservam-se dolorosamente equidistantes
- numa acutilante hesitação -
entre possíveis conexões permitindo incutir-me novos impulsos libertadores
e a cessação definitiva de toda a actividade mental
um derradeiro renunciamento à sensibilidade e à criação
um enraizamento brutal na bárbara atecnia.

(Desesperadamente consciente sinto algo abandonar-me
ininteligível e inominável afasta-se rastejando
do meu ser vomitado em coagulação lenta
no sáfaro solo do abandono onde aguarda
uma hipótese venturosa e irremitente.

Partícula esquecida do corpo que compunha
inane de emoções
de toda a possibilidade emotiva
raro exemplar de um utópico vazio
mantenho-me nesta inexistência
como um desafio ao entendimento).

A ubiquidade das trevas consolida-se
trevas de fantástica espessura
trevas tangíveis onde nenhum rasgo aparece
onde os golpes se fundem na massa obscura

sombras inumeráveis envolvendo
a aterradora corporalização de medos em superabundância desumana.

Desenvolvem-se excrecências so espírito
pontos de estrema clareza onde a realidade esvanece
cedendo às línguas geladas do indizível
dardejantes sob sóis variadíssimos de dor

matrizes desesperativas irradiando a fosforescência doentia
onde as minhas ínfimas radículas
asfixiam dispersas numa prospecção absurda

portanto
pende ainda algo do pensamento
mas como uma escapatória impensável
agarrando e puxando-meaté à boca espumante
onde o mundo gesticula indiferente aos meus derramamentos fatais.

Um frio esparso em agulhas obnubilantes penetra-me até à traspassação da alma
- como uma dor mas divisível
em pontos de fulgurância extrema –
chuva meteórica e glacial lassando e aplacando
originando uma hipnose dolorosa
estacando repentinamente o sangue
mergulhando as funções vitais numa estagnação dubitativa :
- sou um pântano humanado jazendo nas trevas insones.

Um horror inusitado insinua-se nos poros
paulatinamente um pavor pontua
monocórdico
a retensão sonora dos nervos.

Pelo corpo introrso propagam-se absurdos luminosos
reverberações fantasmagóricas de lágrimas inquinadas.

silente na matéria cansada e semelhante ao gás dos suicídios
com abafante subtileza
o desespero acelera a dissolução dos músculos
o quebrantamento da rigidez nervosa
o esfibramento da tessitura fundamental.

Sobre as pálpebras exaustas o crepúsculo goteja
distende-se a inconsolável sombra do revólver expectante.

Será coercível tão grande dor na exiguidade do coração humano?

A luz insiste ainda e fere
incita ao recolhimento sufocativo
à completa alienação.

Sou um peso projectável
um peso imagético
um peso de chagas remémoras decussado
sobre a mórbida perenidade
da imarcescível angústia :

- órgão ignorado pelos anatomistas
pulsando no abdómen real.


2

Num dédalo interminável de ausências rolam informes
detritos intelectuais imaleáveis no espírito.

À margem da minha interior devastação abrem-se calhas ilusórias
mas são simples cordas estranguladoras de esperanças
cabos incendiados contraídos em anéis poderosos
halos constritores duma angústia comburente.

Existe uma morte em mim
um encadeamento de necroses irreversíveis
um nó cego de fibras elementares
uma embolia da circulação pensante.

Possuo um âmago convuluto em insuperáveis antinomias
um centro trilhado pelo mecanismo consciente do terror
uma trituração mortífera de entrosas inalteráveis inervando a irremediável liquefação dos elementos meditativos
a deliquescência da armadura espiritual.

Abate-se uma atmosfera de sono
pressente-se a ténue corrente duma tensão ilogicamente calma.

A consciência transborda num escorrimento filiforme
volatiliza-se sobre a inextinguível angústia num vapor de medos onde abismos suspensos vacilam
onde o pensamento morto cai balançando-me no absurdo da enciclia criada.

O torpor craqueja
a sua cúpula omissória evola-se
a fricção estridente das placas cranianas desperta os sentidos estupefeitos
o pensamento ressuscitado pelos abomináveis ritos do espírito
expia uma nova dor no bolor das coisas impossíveis

- nada circula no fóssil que sou -

dá-se uma lentíssima metamorfose
uma adaptação gradual ao estado reptiliano
um abaixamento à certa superioridade do rastejar.

(A mineralização mental faz progressivamente esquecer
as condutas oxidadas de indiferença
por onde outrora fluiu a estuosa emoção).

o corpo irreconhecível espirala-se num delírio de carne esmagada
cruelmente compresso ressua sangue ruim onde gravitam
incandescentes de dor
coágulos duma enfermidade intelectual
cansaços cristalizados
ansiedades insanáveis

amalgamando-se formam o manto plúmbeo que envolve e lança o cérebro num estado inanalisável
cérebro esparso em ruínas de uma guerra intrínseca
onde a razão rarescente acaba de usar-se
enredada num cruzamento frenético de espadas
na implexa inenarrável tundra ferida do sangue.

A total ausência do ser em si ilumina-se
o pensamento injecta-se e ascende a claridade aflitiva
atinge o pináculo desesperado dos tormentos límpidos
dos ofuscantes calvários
submete-se à vertigem do ilimitado informulável
ao ponto crítico da náusea
ao vómito mental na estonteante
e clínica brancura da pura inanidade.


3

Abstracções fragmentadas de dor emassam-se em dor concreta
revolucinam custosamente o eixo corroído da consciência.

Exaurido dilapido-me em arestas rompendo
o alinhavo ténue que mantinha
numa frágil harmonia o meu pensamento comigo.

A inequívoca falha do meu substrato sensível
prolonga-se sob a acção da intranquilidade depascente
eminentemente claudicante mantenho-me na opacidade ondulatória da letargia
intumescido banho na minha própria ilusão.

O intelecto crispado fissura-se
germina um rudimentar conglumerado de ideias
- algo elementar e definitivo perde-se
por sudação da base do raciocínio poroso –

convulsões regressivas traem a intoxicação do processo intelectual
dá-se a difracção do feixe pensante

a arborescência mental definha
desenraizada.

Eis-me confinado à virtualidade
à transparência hialina :

- cingido à sombra de uma ilusão de ser
sou na minha vacuidade um trono assente
sobre pilares enormes de nada.


4

A luz apocalíptica permitindo a articulação do pensamento
transubstancia-se numa adunca palpabilidade
numa garra esplêndida operando
incisões pitónicas na película mental
- num plano recuado julgado intangível -

de onde emerge em plena afasia plantado
o totem oscilante da razão

num momento absoluto de vitrificação da língua
de sideração da palavra
de fragmentação do sentido.


5

A dor desponta no espírito frondescente.

Dor derrisória ainda
paradigma duma dor maior
insistente espinho testando
a membrana neurasténica da consciência.

(O incessante regresso ao meridiano pungente da orbe cogitativa
a sua eventração e eversão
a dequitação do pensamento
numa sequência abortada).

Dor autogénea
como se dentro de mim a minha larva
se devorasse desconhecendo-se.

6

Epílogo de transição

A faculdade retentriz elimina-se numa tosse convulsa do pensado
numa expectoração luctíssona de glomérulos infectados de memória.

Após detalhada dissecação
exaustiva autópsia do espírito comocionado
epulão do seu próprio sacrifício
aceitar-se vápida oferenda
renunciar-se
esquecer-se nas volutas duma repetida imolação

colher na dolorosa deiscência o seu maduro ciciar
poder dizer :
- não pertenço nem possuo
nunca conhecerei
a intolerável vergonha de morrer por defeito.

DeusExMachina

1 comentário:

Anónimo disse...

há tanto tempo... fico feliz que o meu eu de então ainda exista