07/02/04

DESPEDIDA

Como voltar sem te perder nesta viagem?

Como fazer p’ra te matar dentro de mim?

De cada vez que apunhalo a tua imagem

Tinjo o meu peito com meu sangue carmesim...



Como afastar o que nasceu p’ra ser unido?

Como furtar dum céu azul o astro-rei?

Como expulsar a tua voz do meu ouvido?

Como dizer ao coração que cumpra a lei?



Como viver com teu fantasma em minha casa?

Como varrer da minha pele o teu odor?

Como enterrar-te, de uma vez, em campa rasa?

Como é que eu faço? Diz-me tu, oh meu amor...


Aníbal Raposo, Lisboa, 2003-07-02

...pensando bem...

...as minhas palavras não estão gastas, menos ainda velhas...estão, apenas, sedentas...de ti!

*****
A palavra eleita


Quem me dera ter a sageza de escolher,

de entre todas as palavras,

a palavra eleita.



A que,

por estranho sortilégio,

pudesse desenhar em traço firme,

como uma estrela que risca um céu de lua nova,

a evidência do meu amor por ti,



da forma mais singela, pura e escorreita.



Aníbal Raposo, Maio de 2001



06/02/04

...a indiferença...

(...)seria ilógico dizer que os prisioneiros de Guantanamo são uns felizardos (apesar de não saberem porque estão presos e de serem objecto da indiferença de toda a popuçação mundial)?

JR - 06.Fev.2004

A face oculta de uma certa direita

O Xerife Joe Arpaio (Maripoca / Arizona / EUA), é só uma das muitas faces invisíveis de uma certa direita (e de muitos outros "politicamente correctos" que originam estas reacções) que se globaliza subliminarmente.

Se não sabem quem é o Xerife Arpaio nem o que é a "Estrella Jail" que ele dirige, tentem informar-se.

Como aperitivo, posso adiantar que Joe Arpaio se gaba de feitos económicos excelentes na gerência da sua cadeia porque, diz, "Os meus prisioneiros estão gordos demais, por isso, reduzi-lhes a ração diária": reduziu as 3.000 calorias diárias para 2.500.

A redução, para além do efeito estético do emagrecimento médio de 8 quilos por prisioneiro, produziu feitos económicos dignos da nossa Ministra Ferreira Leite: uma redução de custos na ordem de 400 mil euros anuais!

Aboliu o café (poupança de 160 mil euros), o sal e a pimenta (poupança de 97 mil euros), e quanto ao americaníssimo "ketchup", nem vê-lo (poupança de 120 mil euros).

Gaba-se de ter conseguido diminuir as despesas de alimentação diária dos prisioneiros quando comparadas com as dos cães de guarda: os cães consomem 93 cêntimos por dia enquanto que os presos consomem 32 cêntimos.

Diz Arpaio, em relação aos cães: "Esses, coitados, não cometeram crime nenhum."

Alguém se indigna com estas coisas?

Não me parece.

Em Portugal, discute-se futebol e a eventualidade de Santana Lopes mudar o local do circo para que actua...

Nos EUA, onde tudo isto se passa diariamente, estão os “politicamente correctos” entretidos a enviar fax e mails para reclamar perante a visão de um dos seios de Janet Jackson (que cada vez mais parece o irmão travestido).

Estes senhores como Arpaio , e não só, são só a ponta de um iceberg...

Ora vêem porque não assino certas petições “politicamente correctas” como a que demagogicamente anda por aí a circular acerca das reformas dos políticos?

Sabe-se (quase) sempre onde se começa, só não se consegue saber onde se vai parar...
JR - 06.Fev.2004

...que se fodam as palavras!!!

Estou cansada delas...

Quero-te aqui, comigo!Vem...e beija-me a tristeza!, afoga-me o desespero!, mata-me a saudade!


(esboço... de Ccriola para Camus)

04/02/04

Di

merda!... que raio andamos cá a fazer!???? (2)

"merda!... que raio andamos cá a fazer!????

Após milhentas leituras, penso que o autor deste título quereria que o re-fizéssemos:

"Merda!!! É o que andamos cá a fazer!

Não existem perguntas na vida...

Não existem dúvidas na vida...

Perguntas e dúvidas, são traições dos filósofos...

São rasteiras que nos obrigam a brincar...

Que nos obrigam, ao brincar, a voltar ao espanto da criança que existe em todos nós...

Fujam das perguntas... Fujam das dúvidas...

Sejam homenzinhos e mulherzinhas!

Enfim, sejam uns merdas ao quererem perguntar o que nem os filósofos perguntam."

[importas-te de inventar um nick qq para "assinar" estas coisas!???...essa do Eu(zinho) devia pagar(me!) direitos de autor, mas como eu sei q ñ és bom pagador...inventa!!!:-»]

Discutir por discutir...

...prefiro "esta":

"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."CLARICE LISPECTOR


...ou "este" :


"Para ti o tempo já não urge,
Amiga.
Agora és morta.
(Suicida?)

Já Pierrot-vomitando-fogo
(sempre ao serviço dos amantes)
não entra no nosso jogo
como dantes.

Mas esse obscuro servidor,
que promovemos uma vez
(ainda eu não te dedicara
aquele adeus português...),

corre, lesto, como uma chama,
entre nós dois (o saltarim!)
e desafia-nos prá cama.
Esperas por mim?

* * *

Se eu pudesse dizer-te: - Senta aqui
nos meus joelhos, deixa-me alisar-te,
ó amável bichinho, o pêlo fino;
depois, a contra-pêlo, provocar-te!
Se eu pudesse juntar no mesmo fio
(infinito colar!) cada arrepio
que aos viageiros comprazidos dedos
fizesse descobrir novos enredos!
Se eu pudesse fechar-te nesta mão,
tecedeira fiel de tantas linhas,
de tanto enredo imaginário, vão,
e incitar alguém: - Vê se adivinhas...
Então um fértil jogo de amor seria.
Não este descerrar a mão vazia !
(...) Alexandre O’Neill "


03/02/04

...porque me sobra...?

...gostei desta frase/ideia...

"E que um ser pertence a outro apenas... porque sim..."

(...aquele "pertencer" subentendo-o como "amar"...sem sentidos de posse "dos outros"...amar porque sim, porque não se consegue deixar de amar...amar porque sim, sem necessidades de justificar, de racionalizar, de perceber, de explicar...amar porque sim!...não chega!?)

Memórias partilhadas...

(...)
Come on you son of a bitch! Come on baby a ver se me comes! Come on Luís Vaz, 'amanda'-lhe com os decassílabos que os senhores já vão ver o que é meterem-se com uma nação de poetas! E zás, enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares, zás, enfio-te o Ary dos Santos no Álvaro de Cunhal, zás, enfio-te o Zé Fanha no Acácio Barreiros, zás, enfio-te a Natalia Correia no Sá Carneiro, zás, enfio-te o Pedro Homem de Melo no Parque Mayer e acabamos todos numa sardinhada ao integralismo Lusitano, a estender o braço, meio Rolão Preto, meio Steve McQueen, ok boss, tudo ok, estamos numa porreira meu, um tripe fenomenal, proibido voltar atrás, viva a liberdade, né filho? Pois, o irreversível, pois claro, o irreversívelzinho, pluralismo a dar com um pau, nada será como dantes, agora todos se chateiam de outra maneira, né filho? Ora que porra, deixa lá correr uma fila ao menos, malta pá, é assim mesmo, cada um a curtir a sua, podia ser tão porreiro, não é? Preocupações, crises políticas pá? A culpa é dos partidos pá! Esta merda dos partidos é que divide a malta pá, pois pá, é só paleio pá, o pessoal na quer é trabalhar pá! Razão tem o Jaime Neves pá! (Olha deixaste cair as chaves do carro!) Pois pá! (Que é essa orelha de preto que tens no porta-chaves?) É pá, deixa-te disso, não destabilizes pá! Eh, faz favor, mais uma bica e um pastel de nata. Uma porra pá, um autentico desastre o 25 de Abril, esta confusão pá, a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa... Tá bem, essa merda da pide pá, Tarrafais e o carágo, mas no fim de contas quem é que não colaborava, ah? Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, ah? Quem é que não se calava, quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo, o que se chama arriscar, ah? Meia dúzia de líricos, pá, meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro, pá, isto é tudo a mesma carneirada! Oh sr. guarda venha cá, á, venha ver o que isto é, é, o barulho que vai aqui, i, o neto a bater na avó, ó, deu-lhe um pontapé no cu, né filho? Tu vais conversando, conversando, que ao menos agora pode-se falar, ou já não se pode? Ou já começaste a fazer a tua revisãozinha constitucional tamanho familiar, ah? Estás desiludido com as promessas de Abril, né? As conquistas de Abril! Eram só paleio a partir do momento que tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né filho? E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabeça na areia, não é nada comigo, não é nada comigo, né? E os da frente que se lixem... E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada, precisas de paz de consciência, não andas aqui a brincar, né filho? Precisas de ter razão, precisas de atirar as culpas para cima de alguém e atiras as culpas para os da frente, para os do 25 de Abril, para os do 28 de Setembro, para os do 11 de Março, para os do 25 de Novembro, para os do... que dia é hoje, ah?

FMI Dida didadi dadi dadi da didi
FMI ...
(...)
(José Mário Branco - in "FMI")

[irrrrrraaaa...como é q eu te "assino" aqui!???]

29/01/04

"Como se nada houvesse mudado"

"Como se nada houvesse mudado.
O mesmo chão, flores
que hoje vejo
porque então era noite
e só tu brilhavas,
o cheiro dos pinhais e o teu
que permanecem na terra."

António Osório

Amok?

"(...)
O senhor sabe o que é o amok?
- Amok? Creio recordar-me...é uma espécie de embriaguez...entre os malaios.
- É mais do que embriaguez ...é loucura, uma espécie de raiva humana, literalmente falando...uma crise de monomania assassina e insensata, à qual uma intoxicação alcoólica não se pode comparar."

«Amok e Carta Duma Desconhecida, de Stefan Zweig»

Cinema II ("Everybody wants to be found")

«BIG IN JAPAN:

(...)É extremamente difícil saber o que sentem um pelo outro. Mais: seria pena que soubéssemos exactamente o que sentem um pelo outro. John chega a dizer-lhe, mas ao ouvido, e nós não ouvimos. O que importa é que são um homem e uma mulher, no que me parece ser o filme mais heterossexual dos últimos anos, o que melhor entende a ligação evidente, misteriosa, embaraçosa e surpreendente entre os dois sexos.(...)nunca a tristeza soube tão bem(...)
Posted by: Pedro Mexia / 12:29:40 AM»

Dicionário do Diabo

Alguém a abater nesta época de audiências...

"O autor, não se sabe porquê, não gosta de TV nem de programas de audiência e, por isso, arma-se em consciência da treta e escreve tangas que obrigam a consultar aquelas merdas dos livros que eles chamam antigos.
Logo a seguir, como a treta que escreve não parece ser compreensível,exige que não se possam publicar sem ser em episódios.
Está velho, teimoso e cada vez mais lúcido.
Alguém a abater nesta época de audiências..."

bahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
[acrescento da autora do Blog:isto é lá assinatura q se apresente!?!;-)]

28/01/04

Os meus mortos III

«O mau da Fita

Ontem "saltou-me a tampa" depois de horas infindas a ver a morte fulminante de um ser vivo.

Há três meses atrás, perdi o meu pai numa situação que identifico com aquela: o meu pai deve ter sorrido tal e qual Fehér (o meu pai sorria sempre!) e, a seguir, abandonou-me numa fracção de segundo...

Todos nós (minha Mãe, porque estava no andar de cima e poderia estar no de baixo; eu porque estava no Porto e poderia estar em Lisboa; os meus irmãos, porque estavam nos seus lares e poderiam, por um mero acaso, estar lá em casa de meus pais; os meus 5 filhos e 3 sobrinhos porque poderiam ter passado por lá 1 minuto antes; a restante família porque estava no aconchego do seu lar e poderia, por acaso, ter-lhes apetecido ir lá tomar o pequeno almoço; etc.) nos sentimos um pouco culpados pela morte de meu pai, sozinho na sala de sua casa.

Meu pai morreu sozinho e todos nós, cada um à sua maneira, nos culpamos dessa solidão.

Todavia, se viesse um(a) médico(a) dizer-nos que tudo poderia ter sido diferente se algum de nós ali estivesse presente, como encararíamos nós essa morte?

Acordaríamos de noite (e eu faço-o amiúde...) com o sentimento de culpa por aquilo que poderia ter sido uma hipótese?

É esse o prazer mórbido que um(a) médico(a) tem ou deve ter? O de afirmar que tudo poderia ser diferente "se"?


Fehér faleceu, fulminado e em directo para milhões de pessoas...

Meu pai faleceu, fulminado e no resguardo do seu próprio ser...

Aquela repetição ao infinito da imagem de Fehér foi a imagem da morte de meu pai e que não presenciei (e repetida ao infinito do infinito com que me deparo inúmeras vezes ao acordar sobressaltado).

Mas, ao ir contra a corrente dos abutres, rapidamente me apercebi de que estou longamente habituado a ser "o mau da fita".

Em 79, Fonseca e Costa rodava um filme que viria a ser o "Kilas, o Mau da Fita" e, de repente, faltou uma "pastilha", isto é, um microfone especial para captar sons.

A treta dos "Boletins de Importação" emperravam a vinda da Alemanha da tal "pastilha": eram os artigos pautais que não acertavam com o produto, era ali a Rua de S. Mamede que pedia mais facturas e mais justificações da importação, era, enfim, a eterna máquina burocrática que adiava por semanas a continuação do rodar do filme.

Nessa altura, como era casado com uma Assistente de Bordo da TAP e usufruía de viagens baratinhas, meu amigo João Carlos G. , assistente do Fonseca e Costa, telefonou-me e disse-me: "Eh pa´! Queres ir jantar a Frankfurt e trazer na candonga uma "pastilha" de que a gente precisa?"

Dois dias depois lá estava eu em Frankfurt, com a "pastilha" no bolso da bolsa e a jantar que nem um nababo.

Jantei, diverti-me à brava com uns casais alemães que falavam uma mistura de inglês e de espanholês, voltei num voo tardíssimo e passei na Portela pelo sítio de "Nada a declarar".

Uns dias depois vi e ouvi o Sérgio Godinho gravar a "Balada da Rita", vi a "pastilha" a funcionar com a Laidinha ( "petit non" da Adelaide) a ser violada aos gritinhos, e dei comigo a pensar: afinal, eu é que sou o mau da fita.

Conclusão: continuo sem nada a declarar e sem medo de declarar seja o que for.»


JR – 28.Jan.2004 • 02:11:13

26/01/04

Quem disse...?

Quem disse
que esta ausência te devia?

Quem pensou
que esta denúncia se enganava?

Que um dia era pior
que outro dia
Que à noite era melhor
porque sonhava?

Quem disse
que esta dor te pertencia?

Quem pensou que este amor
me perturbava?

Que o longe era mais perto
se fugias
Que o dentro era mais longe
porque estavas?

Quem disse
que este ardor te evidência?

Quem pensou que esta pena
me cansava?

Que calar era pior
se te despia
Que gritar era pior
se te largava?

Quem disse
que esta paixão me curaria?

Quem pensou
que esta loucura me passava?

Que deixar-te era paz
porque corria
Que querer-te era mau
porque te amava?

Quem disse
que esta paixão te espantaria?

Quem pensou
que esta saudade me rasgava?

Que tudo era diferente
se te via
Que o pior era saber
que aqui não estavas?

Quem disse
que esta ternura te devia?

Quem pensou que este saber
se enganava?

Neste langor crescente
que crescia
Neste entender de nós
que cintilava?

Maria Teresa Horta

25/01/04

"fandango"

«(...)
ofende-me que esperes



que o tempo alivie

(...)»


Patético Poeta Palhaço

24/01/04

Eugénio de Andrade

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Francisco, in Bibliotec@

Cinema...

...dei comigo dentro da sala do cinema sem saber bem o que ia ver...a escolha foi feita pelo actor principal Bill Murray (o do Caça Fantasmas)...em geral leio qualquer coisa sobre o realizador, sobre a "estória", sobres os actores...raramente as críticas antes do visionamento...mas desta vez decidi pela expressão de Bill Murray no cartaz de promoção...que raio terei "visto" para me decidir por uma expressão, um olhar!?...enfim, lá fui...como cheguei cedo ainda me deu para começar a ler as "gordas" do Público, logo na primeira página fixei o olhar no "Lost in Translation" ...já tinha lido qualquer coisa sobre o segundo filme da filha de Coppola - a tal q se estreou na realização com "As Virgens Suicidas" - esperando-se, deste segundo filme, a consagração...ou não!?!...o raio das luzes apagaram-se antes de chegar ao artigo...e quando o filme começa...não é que era mesmo o "Lost in Translation" !!!?!!!...com aquele título à portuguesa:"O Amor É Um Lugar Estranho"

...um filme a não perder!!!

"Suponho que gosto desses momentos que se podem apreciar enquanto os vivemos mesmo sabendo que não vão durar. Porque a sua memória fica connosco."

Sofia Coppola... epifanias silenciosas que nos podem perseguir uma vida inteira."