Não penses que é de ti que tenho saudade...
Mas...quando não se lê o que se quer e o que se ouve é um murmúrio saudosista, que outro remédio senão o de dizermos o que não lemos e de escrevermos o que gostaríamos de ouvir?,Quid Novi?
(...as coisas que uma pessoa descobre...depois ainda se diz por aí que não há coincidências, pois...parabéns!, atrasados...)
«Quarta-feira, Setembro 10, 2003
Bom dia Lisboa
tirem-me daqui. debaixo do sol. vou ser aumentado... no desemprego. será que a segurança social ainda dá fundo?
amok, 2003-09-10 (11:29)
J R 2:30 PM »
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12/28/2003 01:34:00 a.m.
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“A amizade, história de perdões incessantes. Com o passar do tempo perdemos a paciência para a história, já não nos importa perdoar e ser perdoados. Essa aeróbica interior cansa, miúda. Eras tão obsessiva em tudo. Queria roubar-te a obsessão, ter outra vez os teus vinte anos. Mas eu era já demasiado velho, voltava a ser novo, como as crianças, trocando um brinquedo pelo outro, respondendo ao brilho da próxima mão, existindo à superfície das coisas, táctil. A sabedoria do gozo, avessa à ciência do prazer. A felicidade esgotava-te, o sofrimento exaltava-te, nada era fácil para ti.
-Como podes ter vivido tanto e ser tão leve?, perguntavas-me. Eu respondia apenas com sorrisos. Ai de ti, se descobrisses que viver demasiado é desistir da vida. Como as crianças. Morrem num instante. Magoam-se menos. Não sabem que a morte existe. É por isso que não perdoo a tua morte. Crava-se-me nos ossos. Sou a tua morte, para que tu vivas ainda. Precisava de um filho que me tornasse mortal em vez de morto. De um ser sem passado nem futuro, hoje, aqui, nos meus braços afogados na tua sombra. O que viverá de ti quando eu morrer? ”
Inês Pedrosa
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12/27/2003 01:10:00 a.m.
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«Só tenho vontade de escrever num estado explosivo, na excitação ou na crispação, num estupor transformado em frenesi, num clima de ajuste de contas em que as invectivas substituem as bofetadas e os golpes. (...) Escrevo para não passar ao ato, para evitar uma crise. A expressão é alívio, desforra indireta daquele que não consegue digerir uma vergonha e que se revolta em palavras contra os seus semelhantes e contra si mesmo. A indignação é menos um gesto moral que literário, é mesmo a mola da inspiração. E a sabedoria? É justamente o oposto. O sábio em nós arruina todos os nossos élans, é o sabotador que nos enfraquece e nos paralisa, que espreita em nós o louco para dominá-lo e comprometê-lo, para desonrá-lo. A inspiração? Um desequilíbrio súbito, volúpia inominável de se afirmar ou de se destruir. Não escrevi uma única linha na minha temperatura normal. (...) Escrever é uma provocação, uma visão infelizmente falsa da realidade, que nos coloca acima do que existe e do que nos parece existir. Competir com Deus, ultrapassá-lo mesmo apenas pela força da linguagem, esta é a proeza do escritor, espécime ambíguo, dilacerado e enfatuado que, livre da sua condição natural, se entregou a uma vertigem magnífica, sempre desconcertante, algumas vezes odiosa. Nada mais miserável do que a palavra, e no entanto, é através dela que atingimos sensações de felicidade, uma dilatação última em que estamos completamente sós, sem o menor sentimento de opressão. O supremo alcançado pelo vocábulo, pelo próprio símbolo da fragilidade! Pode-se alcançá-lo também, curiosamente, através da ironia, com a condição de que esta, levando ao extremo sua obra de demolição, cause arrepios de um deus às avessas. As palavras como agente de um êxtase invertido... Tudo o que é realmente intenso participa do paraíso e do inferno, com a diferença de que o primeiro só podemos entrevê-lo, enquanto o segundo temos a sorte de percebê-lo e, mais ainda, de senti-lo. Existe uma vantagem ainda mais notável de que o escritor tem o monopólio: a de se livrar de seus perigos. Sem a faculdade de encher as páginas me pergunto o que eu viria a ser. Escrever é desfazer-se de seus remorsos e rancores, vomitar seus segredos. O escritor é um desequilibrado que utiliza essas ficções que são as palavras para se curar. Quantas angústias, quantas crises sinistras venci graças a esses remédios insubstanciais!»
[Confissão Resumida, páginas 123 e 124;
“Exercícios de Admiração”, de E. M. Cioran]
http://www.zonanon.org/ideias/pm030216.htm
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12/27/2003 01:01:00 a.m.
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A Antígona situa-se a meio da carreira literária de Sófocles e é um dos dramas clássicos mais admirados pelo público inspirando um extenso número de reescritas em géneros, línguas e meios muito diversos. Deste modo, influenciado por Sófocles, Anouilh* traz a lume, em 1944, uma recriação da peça Antígona.
Para Anouilh, a figura de Antígona é de desprendimento do mundo, um mundo corrupto, em decadência, por isso Antígona sabe que a morte é a atitude mais digna, porque só assim poderá cumprir o seu dever de dar sepultura ao irmão e também porque deixará de viver num mundo impuro, onde entram em conflito a lei dos deuses com as leis da Terra.
A obra de Anouilh reflecte uma miscelânea da metalinguagem com a vida, um teatro sobre o teatro da vida, sobre os papéis sociais que os “actores” são obrigados, pelo guião social, a desempenhar. Parece estarmos perante uma nova concepção do destino onde este já não é determinado pelas Parcas, mas sim pelo carácter, pelas opções, pela condição social e também pelas funções exercidas na sociedade. Esta concepção do destino encontra eco no nosso tempo em que o homem rejeita as ordens superiores, no entanto, continua pleno de reminiscências das épocas em que se acreditava nos deuses. É neste sentido que Anouilh actualiza o mito, na medida em que coloca os problemas tal como eles surgem no nosso quotidiano.
Já no seu tempo Sófocles havia criado os seus caracteres inspirado no ideal de conduta humana. Humanizou a tragédia e fez dela o modelo imortal da educação humana. Assim, Antígona eleva-se a uma grandeza humana pelo aniquilamento da sua própria felicidade terrena e da sua existência física e social. O drama de Sófocles gira em torno da imposição política que pesa sobre o espírito individual na interioridade silenciosa do ser. Este silêncio e também a solidão são as condições essenciais do teatro de Sófocles.
A obra de Sófocles e a de Anouilh foram representadas em épocas diferentes, no entanto ambas convidam ao estudo de uma vertente feminista se remetermos para o facto de Creonte e Antígona representarem dois pólos antagónicos. Creonte não admite nem consente a falta de Antígona, possui o poder real e pensa que o pode perder ao reconhecer a uma mulher o direito de o contestar. Este facto vem comprovar que na Antiguidade as mulheres não têm o direito de refutar as decisões masculinas, mesmo quando estas provem ser injustas e afrontem os próprios deuses. O debate entre as duas irmãs centra-se na questão do papel a desempenhar pelas mulheres na cidade. A pólis é uma realidade essencial na vida dos gregos e em Sófocles verifica-se que esta surge como mediadora entre o Homem e o mundo.
O drama de Anouilh, espelho de uma sociedade, reflecte um mundo onde o homem para não se corromper arrisca a própria vida chegando mesmo ao extremo: a morte como a única solução. A vida e a morte surgem como os valores mais importantes do ser humano, abordando concomitantemente outros temas como o amor fraternal e o respeito pelas leis humana e natural.
Conceição Azevedo
Línguas e Literaturas Clássicas e Portuguesa
*http://www.uma.pt/Publicacoes/FORUMa/200207_A2N4/antigona_2.html
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12/27/2003 12:57:00 a.m.
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Um dia poderás chegar, tu que nunca chegas
porque não és um tu
ou porque chegas sempre em não chegares.
Subi um dia por uma escada silenciosa
e em torno era um pomar branco, tranquila maravilha
e eu senti, eu vi, adivinhei
a divindade amada, a soberana e delicada
majestade. Que suavidade de oriente,
que suave esplendor! Era o fulgor de um sono
límpido, entre olhos verdes, entre mãos verdes.
E num repouso de oiro adormecido era quase um rosto
Antiquíssimo e inicial. Contemplava
a quietude de um imenso nenúfar
e a fragância era quase visível como um mar entreaberto.
Era um rio detido ou uma tersa nuca ou um braço estendido
que descansa entre ribeiros primaveris
ou era antes a serena felicidade
e era uma boca da terra que não cantava que não dizia
o silêncio ardente que no peito de espuma cintilava.
ARR
ACORDES, QUETZAL EDITORES, 1990, 2ª EDIÇÃO, P. 79
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12/27/2003 12:48:00 a.m.
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Entrevista de Dinis Machado...«(...)
DM- O lado Sancho Pança, mas aviltado está a dominar a situação. O Sancho Pança é uma personagem simpática, não é um vilão. É limitdo, tem sonhos de pequeno burguês, como ser governador de uma ilha.
Ele é de uma fidelidade a toda a prova.
DM - Isso é muito bonito.
Não sei, porque fiéis são os cães, não é?
DM - Aqui não é fidelidade. É lealdade. A não-pratica da traição, ou a impossibilidade pratica da traição. Ele é a favor do outro mesmo em circunstâncias em que não devia ser.
Nós somos solidários com as nossas ideias, ele é solidário com as ideias do outro.
DM - O que é muito interessante. Ser capaz de ser leal é uma das coisas que vale a pena ...É bonito. A pratica da lealdade, mesmo com um punhal nas costas. A lealdade é um sentimento muito nobre, que talvez ninguém mereça, mas quem a pratica acha-a necessária.
(...)»
...sabe tão bem ver q ñ estamos sós...nc duvidei q a lealdade é, incomparavelmente, mais válida q a fidelidade, mas sabe bem ver essa confirmação, assim, pública...
Dom Mai 18, 2003 10:11 pm, no Fórum da ZonaNon, retirado da "Pública/Público"
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12/27/2003 12:31:00 a.m.
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"Primeiro vem o cheiro,
depois os olhos desde sempre
conhecidos, a seguir o abraço
de mistura com palavras doces e amargas - almas gémeas zangadas? -
e depois a despedida.
Quem me livra deste amor que não escolhi? Meus Deus, livra-me de mim."
Pedro Paixão - Histórias Verdadeiras
****
Há quem diga que os grandes amores têm prazo de validade.
Percebe-se porquê. Para serem grandes têm de ser permanentes e invasivos. Têm de provocar tensões, ansiedades e medos de perda. Precisam de drama e de mistério. Precisam de proximidades e inacessibilidades, de presenças e de ausências, de partidas com lágrimas e de regressos apaziguadores. Precisam de um movimento, de uma cor e de um cheiro que os tronem únicos.
Estupidamente, nós, protagonistas das histórias de amor não precisamos de nada disto. Não aguentamos tanto folclore com facilidade e acabamos repartidos entre a ideia de que "é bom" e "isto não pode continuar";´"é muito bom", "devo estar louco"; "é o homem da minha vida", "ninguém faz isto"; "tenho que pôr ordem na minha vida" e "que coisa mais anormal".
Vai daí, suspiramos pela normalização da relação, pelo momento em que tudo decorra tranquilamente. Desejamos poder ser capazes de nos voltarmos a preocupar com assuntos banais, com temas sem nenhuma referência ao outro. Esperamos o dia em que, sem mágoa, o possamos mandar de fim-de-semana com os amigos ou à pesca para longe.
Claro que quando esse momento chega e se instala, quando o amor se adquire como facto consumado, esperado e devido, deixa-se o território do grande amor.
Fica-se com a nostalgia de uma iniciação, a saudade do que já foi, o compromisso desejável entre o tudo e o nada. Ou então reinicia-se o ciclo da procura de sentidos e lá vamos nós outra vez hesitantes.
"Quem me livra deste amor que não escolhi? Meu Deus, livra-me de mim".
Isabel Leal, «Gostar de Quem Não Gosta de Nós»
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amok_she
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12/25/2003 08:54:00 p.m.
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Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, vôo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
O homem quer ser peixe e pássaro
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro.
Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma coisa só
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa
de uma nave.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogara as moedas da noite
Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.
Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
certamente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertence
ao habitante menos misterioso,
talvez todos acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos
do seu gato.
Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com os seus extravios,
o pôr e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
os seus olhos tem números de ouro.
Pablo Neruda
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12/25/2003 04:43:00 p.m.
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Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.
Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.
Clarice Lispector
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amok_she
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12/25/2003 03:44:00 p.m.
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Que sabes tu de mim, amor que o és,
Se na longa jornada que fizemos
Nunca abriste as narinas ao perfume
Das palavras que te eram dirigidas?
Agora, recordas com ternura
As outras, deixadas solitárias
Na caixa do correio imaginária
Duma joaninha que inventei em ti.
[ "ENGANOS" - Aníbal Raposo ]
Quid Novi - Dez 24, 2003 5:23 pm
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amok_she
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12/25/2003 03:06:00 p.m.
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«Mais pour procéder ici avec plus de franchise,
je ne dissimulerai point que je me persuade
qu’il n’y a rien autre chose par quoi nos sens
soient touchés, que cette seule superficie qui
est le terme des dimensions du corps qui
est senti ou aperçu par les sens.
Car c’est en la superficie seule
que se fait le contact, lequel est
si nécessaire pour le sentiment,
que j’estime que sans lui pas un
de nos sens pourrait être mû.»
Paul Valéry
(Méditations métaphysiques, Quatrièmes réponses, AT, IX, 192)
(VBM - 22.06.2003 11:04)
*****************
A pele é, de facto o invólucro, o limite externo do corpo, mas, não lhe é atribuído senão um sentido ( o tacto ), embora o gosto também com a pele esteja relacionado mas de uma forma interior à delimitação do corpo.
Entender poeticamente o tacto ( o tactear ), como acto de aproximação e resposta ao outro é realmente enobrecer um dos sentidos mais poliformados, que implica um contacto próximo ( o mais próximo ).
Mas, continua a ser uma visão poética, de poeta...
Dan
24.12.2003 03:50
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12/24/2003 03:59:00 p.m.
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00\00\00
Manhã, Limbo. Estou-me a deixar dormir e a sair mais tarde do que devia. A noite é sempre por demasiado curta para ter uma ideia concreta dela. Telefonei para a Sede para ver se ainda recupero o cachecol.
Tarde, Limbo. Amanhã é o dia que se sabe. Tivemos reunião. Serve, pelo menos até agora tem servido para isso, para me dar a ilusão semanal de que pertenço a esta equipa, algo de pouco concreto e que ainda não se definiu. Continuarei a tentar distrinçar qualquer coisa por entre os caminhos lodacentos e sem luz. Aqui cada dia é mesmo um dia. Aqui, realmente, o tempo tem um peso que só o tempo consegue ter. Continuar a focar. Estabelecer pequenos objectivos de curto prazo. Não me afastar da interacção. Mínima e aos bocados mas que mesmo assim existe. Evitar pensamentos paranóicos. Melhor: evitar a paranóia dos pensamentos. Facto: aqui pequenas coisas, tais como a atracção e a raiva, são completamente anuladas de tal maneira estão visíveis; mas sabemos, sim é um facto, que não nos podemos tocar. Facto: o dia de ontem não tem nada a ver com o dia de hoje que também não terá nada a ver com o de amanhã. Facto: aqui a hierarquia está muito bem camuflada mas existe. Facto: aqui eu sinto que sou o ponto intermédio. Facto: aqui a teoria dos grupos aplica-se completamente. Facto: as chefias são autónomas. Há fortes sentimentos de tentarem atingir o grupo de referência. Ex.: estagiária S. Facto: aqui todas as inseguranças estão, irremediavelmente, expostas. Facto: sou, pelo menos sinto-me, como uma espécie de cuco neste ninho. Estratégia: não ser por demasiado luz, não ser por demasiado sombra.
Noite, regressado. Telefonou-me a A. Qualquer coisa a propósito dos nossos projectos (supõe-se que existam) conjuntos. Supõe-se o quê?!? Andei, antes, às voltas. Passeei em frente ao S. C, junto ao lago, os putos brincavam com archotes como se fossem serpentinas. Cuspiam fogo. Passei pelo largo, o chão era só gasolina, olhando o fogo nos meus olhos como se não soubesse, invento pois nunca tive nenhuma dúvida, que era o fogo que me olhava para dentro, ainda o sinto no meu corpo a arder. Escrevo por demasiado com tinta, apenas devia escrever com sangue mas algo (o quê?!) escapou-me por entre os dedos. No fim da tarde de hoje vi os putos do bairro a atirarem uma mota roubada pela encosta abaixo. Viram-me e fugiram. Esperei que ela explodisse mas foi em vão. Atitude: dar o melhor (?!), castrar todos os pensamentos que derivam dos factos que me conduziram a esta realidade. (!!??!!)
Camus1
06.01.2003 00:20
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12/24/2003 03:39:00 p.m.
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«Voltei a pensar em ti. Um dia mais, um mês mais, um ano mais.
(..)
Sentada num banco do jardim olho a árvore. A mesma que, da janela do meu quarto, atravessa as cores e o vento e o cheiro das estações. Sei que os troncos nus e vazios da noite acordam vestidos de folhas, as folhas enfeitam o jardim de verde-novo, amarelecem e vão-se embora. Não tem importância nenhuma porque é sempre assim, sem novidade. Prefiro a ausência sem novidade à saudade; essa ausência rasgada pela memória. A ausência é uma saudade arrefecida, uma saudade que nos faz ter tempo para recuar e olhar para dentro. A saudade não, não sobra tempo para nada, porque todo o tempo do mundo pertence-lhe. Por isso gosto da ausência, tem a virtude de seleccionar o melhor, dar lustro às imagens que julgávamos desimportantes, e passar um mata-borrão nas más. Na ausência, resolvemo-nos por dentro e acertamos contas com a memória das coisas boas. Como a luz do teu olhar, sempre que alongávamos a vista pelas ondas altas de espuma a rebentarem do outro lado da estrada e te ouvia falar do juízo da vida. Ou quando nos sentávamos nos degraus de pedra a escutar o silêncio dos cedros que varriam as nuvens devagarinho para perto do mar. Ou simplesmente nada. No nada que nos separa agora cabe lá tudo o que quisermos. É melhor assim. É melhor que não voltes. Quando voltas, baralho a ausência com a saudade e confundo tudo. Não posso fazer travar a história dividida das nossas vidas, nem ampliá-la à minha maneira para que a lembres melhor. De que serve colar «cromos» de um metro e 80, cultos e tudo, na caderneta? Ceder à tentação de um «new-look» ultra-arrojado? As massagens de requinte asiático que nos devolvem o corpo dos 20 anos? Viver de sopa e ananás 15 dias seguidos? Chorar ao colo do psiquiatra ou fugir para as Maldivas?
Dizem que o tempo cura. É mentira. O tempo não cura nada, o tempo alivia a dor, consola-nos a alma, ensina-nos a tratar os afectos como pessoas crescidas. Uma espécie de anestesia fraquinha, que nos faz distrair de nós mesmos. Das nossas emoções e da força dos nossos sentidos. E depois vêm os entendidos, movidos pela urgência da cura. Trazem o diagnóstico numa mão e a receita na outra; chamam-lhe obsessão, fixação, paranóia, teimosia, e para que ela se instale há que declinar o verbo esquecer, em todos os tempos e modos, como se alguém assim estivesse realmente interessado em esquecer. Mas na verdade tornámo-nos «autistas do amor» e a convalescença é apenas o analgésico da recaída - quando nos julgamos sarados da ausência, ela ganha contornos antigos e de repente agiganta-se à nossa frente maior do que nunca antes. É este o sentido trágico da vida: a dose a mais de amor, aquela que mata porque ele não morre. Contas feitas, o que prevalece são paródias tristes de Carnaval… A pressão da água a explodir dentro dos balões, serpentinas partidas que não chegam a atravessar o dia, máscaras para esconder o cansaço, desfiles de ilusão pela ruas da cidade e os tais corações de cetim brilhante, como a minha avó dizia: «Brilham tanto que são falsos, filha, os verdadeiros vêem-se à distância».
Entre a verdade que dói um bocadinho e a imitação que distrai um bocadinho, «faz-se da vida uma aventura errante».
Na ausência tudo isto fica mais claro. Vou ver se não volto a pensar em ti.»
Maria João Lopo de Carvalho
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12/22/2003 11:59:00 p.m.
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«Comecei a desaparecer no dia em que os meus olhos se afundaram nos teus.(...)
Eu só queria ver de que era feito o teu amor por mim. Precisava de escangalhar o teu coração para o fazer encaixar no meu. E agora tenho que o desencaixar outra vez para sair deste limbo. Mas não sei como. Sem o teu coração não consigo amar (...).»
"Fazes-me Falta", Inês Pedrosa
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12/22/2003 07:48:00 p.m.
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