24/12/03

Diário, fragmentos

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Manhã, Limbo. Estou-me a deixar dormir e a sair mais tarde do que devia. A noite é sempre por demasiado curta para ter uma ideia concreta dela. Telefonei para a Sede para ver se ainda recupero o cachecol.
Tarde, Limbo. Amanhã é o dia que se sabe. Tivemos reunião. Serve, pelo menos até agora tem servido para isso, para me dar a ilusão semanal de que pertenço a esta equipa, algo de pouco concreto e que ainda não se definiu. Continuarei a tentar distrinçar qualquer coisa por entre os caminhos lodacentos e sem luz. Aqui cada dia é mesmo um dia. Aqui, realmente, o tempo tem um peso que só o tempo consegue ter. Continuar a focar. Estabelecer pequenos objectivos de curto prazo. Não me afastar da interacção. Mínima e aos bocados mas que mesmo assim existe. Evitar pensamentos paranóicos. Melhor: evitar a paranóia dos pensamentos. Facto: aqui pequenas coisas, tais como a atracção e a raiva, são completamente anuladas de tal maneira estão visíveis; mas sabemos, sim é um facto, que não nos podemos tocar. Facto: o dia de ontem não tem nada a ver com o dia de hoje que também não terá nada a ver com o de amanhã. Facto: aqui a hierarquia está muito bem camuflada mas existe. Facto: aqui eu sinto que sou o ponto intermédio. Facto: aqui a teoria dos grupos aplica-se completamente. Facto: as chefias são autónomas. Há fortes sentimentos de tentarem atingir o grupo de referência. Ex.: estagiária S. Facto: aqui todas as inseguranças estão, irremediavelmente, expostas. Facto: sou, pelo menos sinto-me, como uma espécie de cuco neste ninho. Estratégia: não ser por demasiado luz, não ser por demasiado sombra.
Noite, regressado. Telefonou-me a A. Qualquer coisa a propósito dos nossos projectos (supõe-se que existam) conjuntos. Supõe-se o quê?!? Andei, antes, às voltas. Passeei em frente ao S. C, junto ao lago, os putos brincavam com archotes como se fossem serpentinas. Cuspiam fogo. Passei pelo largo, o chão era só gasolina, olhando o fogo nos meus olhos como se não soubesse, invento pois nunca tive nenhuma dúvida, que era o fogo que me olhava para dentro, ainda o sinto no meu corpo a arder. Escrevo por demasiado com tinta, apenas devia escrever com sangue mas algo (o quê?!) escapou-me por entre os dedos. No fim da tarde de hoje vi os putos do bairro a atirarem uma mota roubada pela encosta abaixo. Viram-me e fugiram. Esperei que ela explodisse mas foi em vão. Atitude: dar o melhor (?!), castrar todos os pensamentos que derivam dos factos que me conduziram a esta realidade. (!!??!!)

Camus1

06.01.2003 00:20

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